TRATAMENTO DA CRIANÇA COM DERMATITE ATÓPICA


 

I)                   MEDIDAS GERAIS

 

1)      O banho nunca deve ser demorado, pois pode piorar o ressecamento da pele;

2)      A água do banho nunca deve ser quente;

3)      O uso do sabonete deve ser restringido ao mínimo;

4)      A maioria dos sabonetes leva ao ressecamento da pele, mesmo os glicerinados;

5)      O vestuário deve ser leve, evitando roupas de lã que podem irritar a pele;

6)      Evitar vestuários que provoquem suor excessivo;

7)      Tanto o frio como o calor excessivo provoca piora das lesões de pele;

8)      A roupa de cama deve ser trocada A CADA DOIS DIAS para que não se acumulem partículas de pele descamada, o que pode facilitar a proliferação de ácaros (dermatofagoides);

9)      Os ácaros do meio ambiente provocam piora das lesões de pele, assim como piora das doenças respiratórias alergênicas.

 

II)                ALERGENOS ALIMENTARES

 

1)      Algumas crianças com dermatite atopica pioram suas lesões de pele com a ingestão de determinados alimentos;

2)      Essa possibilidade deve ser cuidadosamente verificada pelo médico, evitando restrições desnecessárias na alimentação da criança;

3)      Cuidado com as dietas restritas demais, principalmente em lactentes e pré-escolares, que necessitam de uma alimentação saudável para o adequado crescimento e desenvolvimento;

4)      Ao se restringir determinados alimentos poderá haver necessidade de suplementação de nutrientes, como, por exemplo, o cálcio, em dietas de exclusão de leite, para que não haja risco de desnutrição desses pacientes;

    

       III)       ALERGENOS AMBIENTAIS

 

1)      Os controles de alergenos ambientais são tão importantes nas lesões de pele como no controle das doenças respiratórias;

2)      O envolvimento dos travesseiros e colchões com capas protetoras de material impermeável contribuem para diminuir a quantidade de ácaros nesses objetos;

3)      O contato direto com irritantes do meio ambiente deve ser evitado (fumaça de cigarros, cheiros fortes de produtos químicos utilizados na limpeza doméstica, cheiro de tintas, ceras, etc)

 

III)             HIDRATAÇÃO

 

1)      A hidratação da pele é medida essencial para o sucesso no tratamento da criança com dermatite atópica;

2)      A função principal da hidratação é impedir que haja perda da umidade natural da pele, sendo mais reduzida nas crianças atópicas;

3)      Os benefícios da hidratação serão alcançados se forem respeitadas algumas medidas:

a)      A hidratação deve ser feita imediatamente após o banho (nos três primeiros minutos);

b)      A hidratação deve ser repetida inúmeras vezes ao dia, sem restrições;

c)      Os hidratantes mais oleosos, como o óleo de amêndoas ou vaselina, devem ser utilizados nos estágios mais crônicos com liquenificação da pele;

d)      Hidratantes cremosos, cuja base é aquosa, devem ser aplicados nas fases agudas em que há vermelhidão e exsudação (lesões úmidas);

e)      Devem ser evitados hidratantes que contenham corantes, perfumes ou soluções alcoólicas que podem irritar a pele;

f)        Hidratantes sem conservantes também podem ser manipulados, apenas devendo-se considerar que sua validade fica bastante reduzida;

g)      A manipulação medicamentosa pode ser útil se quer associar ao hidratante soluções antipruriginosas, como a cafeína e o alcatrão, ou mesmo corticóides tópicos em baixas concentrações;

h)      Por seu uso contínuo, o sucesso da boa hidratação também dependerá do custo do medicamento.

 

IV)             ANTI-HISTAMÍNICOS

 

1)      A utilização de anti-histamínicos é uma tentativa para o controle do prurido da Dermatite Atópica, mas os resultados na literatura médica são controversos;

2)      A baixa resposta do prurido ao uso de anti-histamínicos pode ser justificada pela participação de outros mediadores, que também provocam coçadura;

3)      Os nomes comerciais dos vários anti-histamínicos são: Polaramine, Agasten, Fenergan, Hidroxizina, Claritin, Loralerg, Loremix, Teldane, Zyrtec, Zetir, e outros;

4)      Somente os médicos têm conhecimento técnico suficiente para indicar esse ou aquele anti-histamínico para cada criança específica portadora de dermatite atópica;

 

V)                CORTICOIDES TOPICOS

 

1)      O uso de corticoides tópicos na dermatite atópica é muito importante tanto por seus benefícios como pelos efeitos colaterais que podem provocar;

2)      Os corticoides tópicos são precocemente indicados nas crianças nas quais as medidas gerais e de hidratação foram insuficientes para o controle do quadro clínico;

3)      Os corticoides apresentam potências variadas, que resultam em efeitos colaterais diferentes, cabendo ao médico indicar qual o melhor em cada situação apresentada pela pele da criança no momento do tratamento;

4)      Em lactentes e pré-escolares, a preferência recai sobre os corticoides tópicos de baixa potência, principalmente a hidrocortisona, que mesmo assim devem ser evitados no rosto e têm seu tempo de uso limitado à melhora do quadro;

5)      Os corticoides de maior potência podem ser usados em áreas delimitadas, em pacientes de mais idade (a partir de pré-escolares), sempre por tempo bem definido;

6)      Inúmeros efeitos colaterais têm sido descritos com o uso crônico de corticoides tópicos, desde locais, como estrias e atrofia cutânea, até efeitos sistêmicos, como inibição do crescimento relatado em crianças onde houve o uso excessivo em áreas extensas, em lactentes jovens, principalmente utilizando corticoides potentes;

7)      Corticoides de potência muito elevada: Dipropionato de betametasona (Psorex);

8)      Corticoides de potência elevada: Halcinonida a 0,025% (Halog); Halcinonida a 0,1% (Halog); Valerato de betametasona; Acetonida de triancinolona;

9)      Corticoide de potência moderada: Valerato de hidrocortisona a 0,2% (Westcort); Desonida a 0,1% (Desonol); Furuoato de mometasona a 0,1% (Elocon);

10)  Corticoide de baixa potência: hidrocortisona a 1% (Berlison, Stifcortil); Desonida a 0,05% (Desonol); Dexametasona.

 

VI)             TRATAMENTO DAS COMPLICAÇÕES

 

1)      As complicações infecciosas da pele devem ser consideradas com bastante atenção pela sua maior freqüência nas crianças portadoras de dermatite atópica;

2)      Mesmo em áreas de pele sã há bactérias chamadas de Staphylococus aureus;

3)      Quando há reagudização das lesões de pele com sangramento e escoriações deve-se considerar o tratamento dessa bactéria, tanto pelo uso de medicamentos tópicos quanto sistêmicos (locais e através da ingestão de medicamentos);

4)      O uso de antibióticos profiláticos para evitar a colonização da pele deve ser evitado para não ocorrer o surgimento de bactérias resistentes ao uso desses antibióticos;

5)      A colonização da pele por fungos também deve ser considerada e o uso de anti-fungicos locais são suficientes para a resolução da infecção.

 

VII)          USO DE IMUNOMODULADORES

 

1)      Já está disponível no Brasil o uso de imunomoduladores que regulam a resposta imunológica da criança nos locais da pele lesada, com excelentes resultados em todas as faixas etárias e em todas as fases de evolução da doença;

2)      Essa substância não traz os riscos de efeitos colaterais dos corticoides;

3)      Seu nome comercial é Elidel Creme a 1% (pimecrolimus), que deve ser usado como uma fina camada sobre a pele lesada duas vezes ao dia, por tempo prolongado, determinado pelo médico que está acompanhando a criança portadora de dermatite atópica;

4)      A desvantagem atual desse medicamento é ainda seu alto custo, inviável para as famílias de muitas crianças portadoras de dermatite atópica.

 

VIII)       ASPECTOS PSICO-EMOCIONAIS

 

A abordagem da criança com dermatite atopica deverá ser a de uma criança acometida por um problema crônico, sem cura conhecida na atualidade, com o tratamento direcionado para o controle mais adequado dos sintomas. A não conscientização desse fato terá como conseqüência a frustração dos familiares e da própria criança.

Toda doença orgânica crônica causa transtornos psico-emocionais para a criança e seus familiares. A frustração diante do problema transforma a imagem corporal da criança e ela passa a ver a si mesma como um ser diferente dos demais da mesma idade. O prurido contínuo da pele muda a qualidade de sono, incomoda a criança na escola, desperta sentimentos de raiva e medo nos familiares. A criança passa a ser tímida, retraída, afastando-se do convívio social como se fosse portadora de uma doença contagiosa. O sorriso alegre característico do período infanto-juvenil passa a ser substituído por semblantes entristecidos, carregados de amargura e medo.

Portanto, os familiares têm que adquirir uma consciência do problema para uma adequada abordagem holística (global) da criança, em seus aspectos somáticos (do corpo), psico-emocionais e sociais.

      Na realidade, todos nós somos seres indissociáveis, unos, e devemos ter nossos problemas abordados dentro dessa percepção abrangente, complexa, e não procurar soluções imediatistas, simplificadoras e frustrantes em seus resultados.

 

Fontes: 1) PEDIATRIA BÁSICA – TOMO II – 2003 – PEDIATRIA CLÍNICA GERAL – EDUARDO MARCONDES E OUTROS;

               2) CLÍNICA INFANTO-JUVENIL PRÓ-CRESCER: DO FETO À ADOLESCÊNCIA.